O oceano que existe além da ilha: sobre recomeços e a travessia de si mesmo
Há uma antiga história que atravessa séculos e continua dizendo muito sobre nós. Na Odisseia, Ulisses parte para o mar acreditando que sua maior missão era voltar para Ítaca. Mas o mar lhe ensina algo que ele ainda não sabia: ninguém retorna sendo a mesma pessoa que partiu. Entre tempestades, sereias, ciclopes e ilhas que prometiam descanso, cada desvio revelava uma parte de si que permanecia desconhecida. O maior desafio nunca foi o oceano. Foi resistir ao desejo de abandonar a própria jornada.
Talvez seja assim com os nossos recomeços. Acreditamos que estamos procurando uma nova ilha, um novo amor, um novo trabalho ou uma nova versão da vida. Mas, no fundo, o que encontramos é uma nova maneira de habitar a nós mesmos.
A psicanálise nos lembra que a transformação não acontece quando mudamos de cenário. Ela acontece quando aquilo que antes nos fazia repetir começa, finalmente, a ser elaborado. O mar continua sendo o mesmo. As ondas continuam imprevisíveis. Mas quem segura o leme já não é mais a mesma pessoa.
Ítaca nunca foi apenas um lugar. Era a pessoa que Ulisses precisava se tornar para poder voltar. E provavelmente todo recomeço carregue esse mesmo segredo: não atravessamos o oceano para encontrar uma nova terra. Atravessamos o oceano para deixar, em alto-mar, alguém que já não somos.



Comentários