Quando o silêncio assusta: por que tantas mulheres não conseguem sustentar o vazio?

Vivemos numa época em que o silêncio parece uma ameaça. Muitas mulheres aprenderam a preencher cada intervalo da vida com produtividade, telas, conversas, compromissos e excesso de informação. Como se parar fosse perigoso. Como se existir sem ruído revelasse algo insuportável. A ansiedade contemporânea não nasce apenas do excesso de tarefas, mas também do medo do encontro consigo mesma. A escritora Clarice Lispector dizia que “há um grande silêncio dentro de mim”, e talvez uma das grandes angústias modernas seja justamente escutar esse silêncio.
A psicanálise compreende que o vazio nem sempre é ausência; muitas vezes ele é espaço psíquico. Um espaço onde emergem perguntas antigas, dores abafadas e desejos esquecidos. Donald Winnicott falava sobre a capacidade de estar só como um sinal de amadurecimento emocional. Mas para muitas mulheres, estar só nunca foi realmente permitido. Desde cedo, foram ensinadas a cuidar, responder, corresponder, agradar. Quando finalmente se veem em silêncio, sem distrações, sentem um estranho abandono de si mesmas.
Curiosamente, pesquisas recentes sobre saúde mental feminina mostram um crescimento significativo nos índices de ansiedade relacionados à sobrecarga emocional e à hiperconectividade digital. O cérebro cansado de estímulos perde a tolerância ao descanso. O vazio passa a ser confundido com inutilidade. E então surgem relações apressadas, rotinas exaustivas e um consumo emocional quase compulsivo. Como escreveu Virginia Woolf, “não se pode encontrar paz evitando a vida”. E talvez hoje estejamos tentando evitar justamente a vida interior.
O autocuidado verdadeiro não é apenas skincare, velas aromáticas ou uma rotina bonita de manhã. Às vezes, autocuidado é suportar a própria companhia sem fugir imediatamente para o celular. É conseguir sentar com a própria angústia sem precisar anestesiá-la. É entender que nem todo vazio precisa ser preenchido; alguns precisam ser atravessados. Há dores que falam baixo, como uma casa antiga rangendo durante a madrugada. Elas não gritam, mas permanecem ali pedindo escuta.
Existe algo profundamente humano em reconhecer os próprios medos. A mulher que tenta sustentar tudo o tempo inteiro acaba adoecendo na tentativa de nunca parecer frágil. Mas o corpo sempre fala. A insônia fala. A ansiedade fala. O cansaço constante fala. E talvez a cura comece quando deixamos de tratar nossa vulnerabilidade como inimiga. Carl Jung escreveu que “aquilo a que você resiste, persiste”. Fugir do vazio pode ser justamente o que o torna ainda maior.
Talvez o silêncio não seja um abismo, mas um convite. Um lugar onde Deus, a alma e a verdade finalmente conseguem ser ouvidos sem interferências. Porque há jardins que só florescem depois do inverno, e há mulheres que reencontram a si mesmas justamente quando param de fugir do próprio interior. O vazio nem sempre é o fim de algo. Às vezes, é o espaço onde uma nova identidade começa a nascer.



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